• Geração Y é um Blog inspirado por pessoas como eu, com nomes que começam ou contem um ípsilon. Nascidos em Cuba, nos anos 70s e 80s, marcados pelas escolas da paisagem rural, bonequinhos russos, emigração ilegal e frustração. Por isso, convidamos especialmente Yanisleidi, Yoandri, Yusimí, Yuniesky e outros que arrastam os seus ípsilons, para ler e escrever para mim.


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A diplomacia é dessas artes que me dão comichão, dessas danças que ve-las ocorrer me causam náuseas. Por mais que tento entender os embaixadores, os chanceleres e toda essa estirpe de astutos personagens, somente consigo extrair mais confusão de suas ações. Abraçam-se e dão sorrisos, trocam promessas e saem nas fotos lado a lado. Falam em meu nome, ainda que faz tempo não sobem num ônibus, não entram numa fila, nem sabem o alto preço de um ovo no mercado negro.
 
No último ano, o ballet apresentado por “nossa” diplomacia teve muito de dança da sedução. Com meias vermelhas sairam bailando e suas promessas de aberturas impressionaram alguns tantos. Sem embargo, desde o terceiro balcão, onde estamos sentados, os cidadãos, cada fouetté nos tem parecido de encomenda e as novas piruetas - tão previsíveis - que geram bocejos.
 
Aborrecida e decepcionada destas coreografias de aparência, passo a bailar ao som da diplomacia popular. Com tanto buffet e champagne desperdiçados, creio que é melhor interromper estes engravatados representantes. Devem existir formas mais cívicas de se encontrar os povos, contatar e ajudar. Deixemos às chancelarias a farsa dos protocolos de intenção e dos pactos firmados que não se cumprem. Nós - enquanto isso - aproximemo-nos e ponhamo-nos de acôrdo.

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A propósito do prêmio do juri ao melhor weblog e da recompensa dos Repórteres sem Fronteiras na competição The BoBs.

De certo há, contudo, muito que me falta todavia. Não são precisamente prêmios, senão direitos largamente postergados, como o de poder ser lida dentro do meu próprio país. Ainda devo a mim mesma dizer tudo isto no mundo real e não na realidade de um blog. Passar esta praça cívica que hoje é Geração Y à uma existência concreta onde tambem abundam os trolls (internautas idiotas) e o castigo é mais forte que um simples hackeo (golpe cibernético). Necessito algo mais que kilobytes, estou necessitada de realidades.

Carecemos ainda - e esse é o mais ansiado prêmio - do direito à dialogar, dissentir e termos a cor política que queiramos no interior da Ilha. Não deixemos que este seja só um fenômeno restrito a blogosfera, temos que ir em busca do prêmio principal: a livre opinião.

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Finalmente termina a expectativa relativa aos prêmios BoBs. Já sabemos que Geração Y ficou em primeiro lugar na votação pública na categoria Repórteres sem Fronteiras porém contudo esperemos o que dirá o juri. Qualquer versão diferente que ocorra vamos celebrá-la, pois não são necessários muitos motivos para abrir uma garrafa de rum e respingar a zona de comentários com algumas gotas. Será um bom momento para fazer um trégua entre trolls (internautas idiotas) e leitores habituais, entre as brigadas de resposta cibernética e os que vêm realmente debater.
 
Coloquem as cadeiras frente a tela, que transmitiremos a cerimônia daqui mesmo. Peguem o saquinho de amendoim e de coco caramelado (praliné), para não perderem um segundo quando anunciarem os prêmios dos jurados. Aos que já não tem unhas, por favor, evitem comer tambem os dedos; vamos necessitar teclar muito nos dias que vem.
 
Antes que se arme a farra, quero felicitar a todos os que ganhem, cidadãos que - como eu - têm usado seus blogs para narrar suas vidas e lançar questões. Sem o apoio dessa blogosfera mundial e sem a proteção que me é dada pertencendo a ela, num instante me colocariam o aviso de amordaçado. Com o que ocorreu nas votações de The BoBs, não há quem pare esta penúltima letra do abecedário.
 
Obrigado a todos os que votaram.

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Desde semanas atrás existem palavras como “votos” e “candidatos” que nos perseguem por todas as partes. Primeiro foram os comícios nos Estados Unidos e agora o tema renasceu com o ocorrido domingo na Venezuela. Como se no final do ano tudo conspirasse para recordar nossa condição de não eleitores, nossa escassa prática de decidir quem nos dirige.

Alguém se acostuma a não poder optar pelo que vai comer, sob qual credo vai educar seus filhos ou quem lhe abrirá a porta, porém essa resignação acaba quando observa outro votar. Daí que tenha revolta - por estes dias - a vontade de dobrar a cédula, enfiá-la na ranhura da urna e saber que junto a ela vai meu grito, um poderoso grito que reclama: “eleger”.

  • Até o dia 27 deste mes, cada novo post mostrará um lembrete das votações online para os prêmios The Bobs. Lembrem-se que Geração Y está competindo em tres categorias: melhor weblog, prêmio especial Repórteres sem Fronteiras e melhor blog em espanhol. Aqui lhes deixo o link:

The BOBS: votação dos usuários.
Nota do tradutor: Você pode deixar um comentário no website BOBs Awards, o que reforçará seu voto. A escolha final será feita pelo júri, não pela votação isolada. Então diga à ele PORQUÊ o blog da Yoani é o melhor!!!! Obrigado! (Sim, desculpe, mas o modo de deixar o voto não é óbvio. Vá até uma das páginas das categorias e então siga até o blog da Yoani e click em “detalhes - details”. Então você verá no meio da página, sob a figura do blog e acima das avaliações, em fonte azul claro, “rate this”. Click aí e a tela de comentário aparecerá. Seu comentário será mostrado em cada categoria na qual ela está competindo, portanto você só precisa fazê-lo uma vez.

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O meio dia deste sábado nos encontrou rumo à Pinar del Rio. O mato ao lado da estrada já cresceu, porem as palmeiras desfolhadas lembram que o desastre ocorreu há somente dois meses. A vida anda mais lenta, como se Ike e Gustav houvessem remarcado a imagem antiga que já tinham esses campos. Se não fosse por um velho trator aqui e uma torre de eletricidade alí, alguem creria que havia viajado dois séculos - para atrás - no tempo. Algumas casas estão com novas cobertas de asbesto-cimento, que serão alimento para os ventos do próximo furacão.

As duas mochilas de remédios e roupa, recolhidas entre amigos, mostram-se muito limitadas para todas as necessidades que nos acometem. Os alimentos escasseiam, sobretudo - vai a ironia - aqueles que proveem do sulco do arado. Até os meninos, que normalmente afastam o pepino do prato, sentem saudades do peculiar sabor desta hortaliça. A terra demora a cicatrizar. O pequeno agricultor autônomo viu aumentarem as pressões para vender sua colheita ao Estado e não aos mercados livres, onde poderia obter maiores ganhos. Isto gera desinteresse para produzir e prateleiras vazias nos pontos de venda. Outra vez, como naqueles dos anos noventa, é necessário sair da cidade para comprar mandioca, cebola ou um corte de porco.

Entre La Habana e Pinar del Rio dois pontos de controle policial escolhem automóveis aleatóriamente e verificam que ninguem trafegue com leite, queijo ou alimentos. Parecidos com esses sofisticados aparatos médicos para ver o interior do corpo humano, a gente batizou estas inspeções como “somatón” (tomagrafia computadorizada). Nos trechos menos vigiados da rodovia, vendedores ilegais mostram sua mercadoria e se escondem quando passa um automovel com chapa oficial.

Embora para os meios informativos o desastre seja uma notícia que vai-se desvanecendo, nas vidas das vítimas é o principal de cada dia. Há que se evitar que o esquecimento esconda essa situação, que o triunfalismo nos faça crer que tudo já passou, que a avalanche de reportagens positivas nos engane sobre a extensão da catástrofe. Lembro a todos que devem ir às zonas afetadas, entregar diretamente a ajuda e recolher os testemunhos alí. Os ventos do furacão continuam soprando na vida destas pessoas e não vão diminuir porque tapamos os ouvidos.

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Na semana passada falamos de formigas, de pessoas e tradiçoes diminutas que sustentam o dia a dia. Pois bem, à uns poucos metros da minha casa encontrei este cartaz com a mesma metáfora dos insetos. A diferença do formigueiro imaginado por mim - onde cabem todas - é que aqui há uma criatura separada. Assusta-me crer que a formiguinha solitária possa representar o intelectual, ou pessoas como eu - que são trabalhadores informais porque não há licenças para professor de espanhol ou outras profissões dignas. A separada pequenina poderia fazer lembrar os que recebem remessas e não encontram sentido em trabalhar por um salário mais simbólico do que real. À esquerda, debaixo deste poster, poderia aparecer a mulher que vende café na esquina da minha casa, levanta-se as cinco para fazê-lo e joga esconde-esconde com a polícia; o jovem que deixou os estudos e costura sapatos na oficina de seu primo, porem ao chefe de Setor parece um vadio habitual; o marginalizado, a quem negam um trabalho de acordo com sua qualificação porque não é politicamente correto. Tantos poderiamos ser a formiguinha que não carrega folhas em suas mãos…porque as outras não são somente trabalhadoras, senão as autoridades, o grupo das que não saem da fila.

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Dois de meus amigos se casaram nos anos noventa para comprar o cake e as cervejas que partilhava o mercado racionado no caso de bodas. Não eram um casal e jamais haviam trocado algo mais do que um abraço, porem a revenda da bebida e do bolo açucarado lhes proporcionou suficiente dinheiro para viver vários meses, cada um pelo seu lado. Como eles, um montão de gente firmou a ata matrimonial a espera dos ansiados produtos e das três noites de lua de mel num hotel, procuradas a bom preço no mercado negro.
Com essas referências ao redor, custo a levar a sério o fechamento de um contrato matrimonial. Vivo desde um montão de anos uma união consensual sem rastro de papéis. Assim mesmo, muitos de meus amigos coabitam com uma parceira com a qual jamais pisaram num cartório ou certificaram sua união. Não se trata somente de uma moda pós moderna e irreverente, senão da perda do sentido de rubricar o matrimonio. Entre os motivos deste esmorecimento está a ausência de um patrimônio familiar a ser preservado com o firmamento de um contrato. Que diferença pode haver que um filho tenha pais legalmente unidos ou não, se eles carecem de bens que possam ser herdados, nem possessões que necessitem da apreciação legal.

Os  que temos hoje menos de quarenta anos, chegamos às relações amorosas portando como propriedade principal aquela contida em nossa epiderme. Quando chega o final do idílio, os pertences cabem - frequentemente - numa maleta. Com o ninho de amor localizado na casa dos pais e com um salário que não chega para adquirir bens duráveis ou transmissíveis, pouco importa o papel assinado e o selo legal que dá fé ao matrimônio.

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O céu nem sempre aqui tem este azul tão esplendoroso dos postais turísticos. Por sorte, pois não posso me imaginar um ano com o sol esturricante, sem essas semanas de pausa trazidas pelas frentes frias. Desde segunda-feira chegou uma que causou nuvens londrinas em La Habana e inundações severas no oriente do país. As ruas estão consideravelmente vazias na noite, porque o frio assusta os habituais inquilinos dos parques e das calçadas. Subir num ônibus abarrotado já não é o meio mais rápido para empestear as axilas, senão a entrada para um espaço tépido e amigavel.

Com a queda das temperaturas, o humor e a tolerância melhoram; os velhinhos sentem dor no ossos e um leite com chocolate se torna uma alucinação recorrente. Dezembro está tão perto que não vale a pena começar nada, dizem os que adiaram seus projetos durate todo o ano. Vem a época de gastar mais, pressagiam os bolsos que para este Natal estarão especialmente vazios. Não obstante, o mais perceptivel é o tema dos abrigos e cobertores, a pouca proteção frente ao frio úmido que entra pelas frestas das janelas.

Vejo a gente na rua com sweaters, densamente acolchoadas em grossos abrigos sintéticos, porem nenhuma dessas roupas pode ser comprada com o salário que ganham por seu trabalho. Aquele de couro bovino foi mandado por uma irmã que vive em New York e a de linha que veste a garota foi presenteado por um turista de passagem pela cidade. Um menino pequeno tem um impermeável herdado de seu irmão, que por sua vez o obteve de um tio que confisca malas na Aduana. A velhinha que cruza a rua cuidadosa com suas meias de lã, trocadas com uma vizinha por uma lâmina de batedeira. Somente o guarda do hotel ostenta uma jaqueta de mescla com botões brilhantes e novos.

Gosto do inverno e da afabilidade que desperta nas pessoas, porem sei que para muitos é a estação de certos desagrados e vergonhas. De não poder dormir no banco do parque, onde o resto do ano aquele senhor de roupa gasta tem sua única morada. Dos meninos zombando na escola dos que levam um abrigo comprado no racionamento dos anos oitenta. O frio enfatiza as diferenças entre os que podem fechar a porta e os que não tem uma casa com janelas para semicerrar. Faz notar o contraste entre aqueles que levam uma roupa de mangas largas e os que vestem dois pulovers porque não têem um sobretudo. Todos dependentes do termômetro e de que não baixe aos dez graus, pois a indigencia habitacional e de vestuário não suportaria um só floco de neve.

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Um jovem acerca-se de mim para perguntar se sou “Yoani”. Extende-me u`a mão suada e fria. Tenho medo que venha dar-me o primeiro bofetão, porem somente manifesta-se “Oxalá que sejas verdade. Porque temos visto tanto!”. Dá-me vontade de segui-lo e de mostrar-lhe meu umbigo. Não há maior prova de que alguem existe e de que é “verdade”, que um umbigo nodoso no abdomem. Vai-se e deixa todo o pêso de sua dúvida e de sua fé sobre mim - este último é o que mais assusta -. Não me dá tempo de advertir-lhe que não pretendo fundar nenhum credo, portanto suas incertezas me deixam mais aliviada que seu possivel convencimento.

Se o rapaz da mão fria e das frases curtas ler este post, quero indicar-lhe que não posso salvá-lo. Não sou eu quem deve carregar a responsabilidade que deveriamos levar juntos. Eu tambem tenho visto tanto… gente que aplaude e que depois delata; mãos que batem no ombro e finalmente empurram; gritos de viva que se transmutam em sussurros de ódio… Sem embargo, eu não tenho que saber quem é ele para estar certa de que compartilhamos dúvidas, sonhos e culpas.

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Uma pioneirazinha grita palavras de ordem pela manhã em sua escola. A côr avermelhada da face e uma veia pulsando na fronte reafirmam suas exclamações. Entre as frases que repete, há uma metáfora pavorosa: “primeiro submergirá a ilha no mar , antes que renunciar-se a glória vivida”. No mural de um CDR umas palavras ocupam toda a parte superior: “Se avanço siga-me, se me detenho empurra-me, se retrocedo mata-me”. Outro tanto mostrou o jornal neste sabado, quando o Líder Máximo publicou numa de suas reflexões: “depois das vidas oferecidas e tanto sacrifício defendendo a soberania e a justiça, não se pode oferecer à Cuba, na outra margem, o capitalismo.

Numancia volta à minha memória e resisto à crueza que ela implica. Já acreditei nesta história alguma vez, quando menina corria para o refúgio debaixo de sirene pressagiando uma invasão que nunca chegou. A plataforma insular não desmoronará - lamento dar esta notícia aos arautos do colapso - porque temos um governo ou outro, um sistema de tal tipo ou qualquer outro. As árvores não se modificarão, as pedras que viram extinguirem-se os indígenas não mudarão de lugar e provavelmente nem o próprio mar se dará conta. Assim é que, por favor, não me assustem com cataclismos nem apocalipses. Já estou muito grandinha para isto.

Tudo isto passará, já está passando. Numancia somente ocorrerá na mente de alguns, e na de outros o futuro será maior do que o deixado para trás.

Nota do tradutor:
Numancia, cidade da antiguidade situada na atual Espanha, foi conquistada e destruída pelos romanos em 133 AC.

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