• Geração Y é um Blog inspirado por pessoas como eu, com nomes que começam ou contem um ípsilon. Nascidos em Cuba, nos anos 70s e 80s, marcados pelas escolas da paisagem rural, bonequinhos russos, emigração ilegal e frustração. Por isso, convidamos especialmente Yanisleidi, Yoandri, Yusimí, Yuniesky e outros que arrastam os seus ípsilons, para ler e escrever para mim.


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A oitava goteira que apareceu na sala de jantar te levou a aceitar uma missão como médico na Venezuela. Sabias que com o salário de cada mes nunca poderias tirar a telha e reparar as degastadas colunas. Assim sendo a revenda de alguns eletrodomésticos comprados lá te ajudaria a completar o custo do cimento e dos tirantes. Em Havana, uma conta bancária iria aumentando com os cinquentas pesos conversíveis recebidos mensalmente por tua estadia em Caracas. Tua mulher te encomendou um lap top e o menino mais novo queria um Play Station.

Nos primeiros meses dormias mal com o som de disparos que chegavam até à pequena moradia compartilhada com outros cinco colegas. Para espantar a nostalgia, pensavas nas caras de teus parentes quando lhes mostrasses toda a roupa linda que havias conseguido numa loja de descontos. Enquanto isso, o pequeno patrimônio bancário cresceria em Cuba, sob a condição de que só poderias desfrutar-lo no final de tua missão.

Alguem do grupo te confessou uma noite que iria cruzar a fronteira e ir para Miami. Ouviste-o com o temor de quem pode distanciar-se da goteira, o novo teto e o portátil pedido, usando tuas economias para começar uma vida nova. Imediatamente recordaste desse enfermeiro que escapou e nunca pode tirar sua família da Ilha. Os desertores são castigados com a separação, marcados pela impossibilidade de reencontrarem-se com os seus.

Assim foi que passaste teus dois anos curando gente e salvando vidas, padecendo o afastamento, o medo e a promiscuidade habitacional. Como um alívio te chegou a notícia de que tua esposa já havia começado a comprar os sacos de cimento para bater a laje. Quando estava próximo o momento do regresso, alguem anunciou que o compromisso de ficar seis meses mais havia chegado em uma folha para ser assinado. “Não há problema - pensaste - com o que ganharei nesse tempo, talvez me chegue pata consertar as paredes da casa”.

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Estamos atentos à que ninguem se acerque lascivamente de nosso filhos, porém poucos se dão conta do quanto o manuseio se centra nas mentes e não nos corpos. A ideologização da educação cubana chegou a um ponto que alarma inclusive a nós que nos formamos debaixo desses mesmos métodos. Só ao entender-se um livro texto ou revisar-se o sistema de avaliação, pode-se notar o terreno que ganhou a doutrina em detrimento dos conhecimentos. Na aula do meu filho, seis fotos do Líder Verde oliva adornam as paredes, enquanto nas qualificações se inclui a participação  em atividades políticas e patrióticas.

Evoco minha etapa de pioneirinha lendo um comunicado ou gritando palavras de ordens e não posso deixar de sentir-me violentada. Porém a sensação é mais forte quando vejo que Teo - em seus três anos - aprendeu já quais opiniões não deve dizer na escola para evitar problemas. Descobrir minha própria máscara prolongada agora no rosto do meu filho é mais doloroso do que aquele estupro do qual fui alvo.

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Os homens se sucedem, as ideologias vem abaixo, os líderes agonizam e os discursos encurtam, debaixo do repetitivo ciclo de um sol que se põe e volta a nascer. Quando vejo o Índio* surgir de repente em frente a minha varanda, comprovo que pequenez é a nossa, que risíveis pretensões de transcendência as de alguns.

Aqui deixo o primeiro sol de dois mil e nove, o dourado círculo de luz que sobreviverá a nós todos. Desejo-lhes um feliz ano e que os raios deste amanhecer aqueçam a todos.

Nota do tradutor
Os cubanos chamam o sol de “Índio”.

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Pablo Milanés e eu compartilhamos uma tarde inesquecível na Tribuna Antiimperialista. Ele estava no palco, cantando seu amplo repertório, enquanto eu hasteava um cartaz com o nome de Gorki. Seu concerto durou quase três horas, porém o cartaz que alguns impertinentes como nós levantamos, tardou só alguns segundos para ser destroçado. Apesar de estar tão próxima do cantor e compositor de Yolanda, naquele 28 de agosto pensei que milhares de kilômetros separavam minha inconformidade de sua tendencia apologética. Equivoquei-me.

Lí a entrevista dada por Pablo ao periódico El Público e qualquer de suas respostas lhe acarretaria uma agressão se a expusesse em uma praça central de Havana. Seus critérios parecem com os que me levaram a começar este blog e inclusive algumas de suas frases bem poderiam tomá-las como próprias. Quando diz “estamos paralizados em todos os sentidos, fazemos planos para um futuro que nunca chega“, me toca mais de perto do que com todas suas canções juntas. Esse futuro que ele fala, nos foi pintado cheio de luzes e com fundo musical que incluía sua voz entonando “Cuba va“. No interêsse de alcançar tamanha miragem todo sacrifício pareceu pequeno, inclusive o de calar nossas diferenças, e de sufocar todo vestígio de crítica.

As cores percorreram o amadurecido rosto da utopia e a sinfonia da vitória se transformou num reggaeton da sobrevivência. As canções de Pablo Milanés passaram a ser como hinos de velhos tempos onde éramos mais cândidos, mais crédulos. “Muita gente tem medo de falar” nos disse agora e com um tremor que me percorre os joelhos confirmando que sim, que o custo da opinião é demasiado alto todavia. Fora dos acordes  e das tensionadas cordas de sua guitarra, modulou ontem sua melhor canção, essa que leva a inconformidade e o dedo do cidadão apontando o poder. É a mesma música que sussurramos, milhões de cubanos, porém que ele tem a capacidade de modular com essa cálida voz que uma vez nos fez acreditar em todo o contrário.

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O tédio deste fim de ano levou-me à ver o monótono espetáculo de nosso deputados em sua última reunião de 2008. A fórmula de apresentar problemas sem sinalizar as verdadeiras causas, voltou - neste dezembro - à sala do Palácio das Convenções. Todo um estilo de dizer, que começa com uma reverência inicial mais ou menos assim: “Nossa Revolução fez muito para melhorar o comércio varejista, ainda assim subsistem problemas…” Sem essa indispensável genuflexão, se poderia incorrer num atrevimento não permitido ou ser assinalado de hipercrítico e ingrato.

O discurso final feito por Raúl Castro reafirmou a idéia de terminar com os subsídios. Ao escutar essa frase, se tende a pensar sómente no final da quota racionada de alimentos que nós, cubanos, recebemos. Porém o chamado para erradicar preços simbólicos e gratuidades desnecessárias é uma arma de dois gumes, que pode terminar ferindo quem a porta. Se fôssemos consequentes com a eliminação do paternalismo, haveriamos que começar abaixando a carga que significa a manutenção desta obesa infraestrutura estatal que alimentamos com nosso bolsos. Um trabalhador que produz aço, níquel, rum, tabaco ou está empregado num bar de hotel, recebe uma minúscula porção da venda de sua produção ou do custo real dos seus serviços. O resto vai diretamente subsidiar um Estado insaciável.

Entre o simbólico preço de uma libra de arroz racionado ou a enorme “fatia” de nossos salários que levam os que nos governam, somos mais doadores que beneficiados por subsídios. Acabar com eles deveria ser o nosso slogan, não deles.

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Uma data imprecisa de conclusão e a interrogação de se trará informação para todos, circundam o cabo submarino que ligará Cuba e Venezuela. Para todos nós que nos queixamos da pouca conectividade que encontramos na Ilha, já existe um argumento para fazer-nos calar. “Há que se esperar que esteja pronto o cabo”. Com tanta expectativa, vou enumerando o que deveria trazer-nos esse projetado cordão umbilical.

  • Acesso à Internet para todos e não baseado em privilégios, com a possibilidade de qualquer pessoa contratar conexões domésticas.
  • Nas escolas primárias, de ensino médio e universitário, banda larga para os estudantes e tempos de acesso a rede menos limitados que os atuais.
  • A diminuição de custos em cyber-café e nos computadores com conexão  dos hotéis, que hoje custam um terço de um salário mensal.
  • A possibilidade de usar redes sociais como Facebook, Twitter, Hi5 e outras mais.
  • Finalmente lançar mão de serviços como: Skype, videoconferências, envio de grandes pacotes de informação e até ver televisão através da Internet.

Se o afortunado cabo não vai trazer-nos tudo isso, por favor me expliquem quais são as razões para aguardar por ele até 2011. Espero que ao menos um pequeno fio de seu conteudo chegue até minhas mãos de blogueira freelancer, ou será que os kilobytes que circularão em seu interior terão como marca d`água: “só para os confiáveis”.

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Hoje poderia ser 3 de junho ou 9 de setembro, pois apenas alguns detalhes sinalizam que estamos no Natal. Poucos, muito poucos, se felicitam na rua. Comparado com o 25 de dezembro do ano passado, este é um dia mais sem encanto e com menos expectativas frente ao futuro. Mais de doze meses se passaram desde que pressagiamos  - na intimidade da família e dos amigos - supostas reformas, que ficaram num telefone celular ou no usufruto de um hotel que não podemos pagar.

O galo cantará hoje para um povo reduzido em sua ação a um verbo lento: esperar. Enquanto isso, minha agenda telefônica acumula apagamentos dos amigos que emigram e nosso presidente salta como gato enjaulado quando lhe falam de dissidentes presos. Quão pouco avançamos neste 2008! Que ridículos passos no mesmo lugar, demos até este dezembro.

Nota do tradutor
Cuba, como outros países hispânicos, tradicionalmente celebra Natal em 24 de dezembro, Noite Boa que termina a meia noite com a Missa do Galo. A tradiçao sustenta que quando o galo canta a meia noite é o anúncio do nascimento de Jesus.

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Se não propões “soluções”, nem se atreves a fazer uso da arma do criticismo, explica-me porque tampouco não ofereces um só remédio. Seu tom me lembra as aborrecidas assembléias de pioneiros em que estive presente durante todos meus anos escolares. Quando me chegava o turno de falar e meus comentários transbordavam do pessoal para criticar o sistêmico, alguem me parava bruscamente para recordar que um verdadeiro revolucionário propõe soluções, não queixas. Exercer o discernimento devia ser feito de forma construtiva - me advertiam - e com o tempo compreendi que não era um chamado à crítica pungente senão ao conformismo.

Aquelas críticas cerceadas trouxeram estes problemas para os que nem sequer, proponentes da “crítica útil”, tem uma solução.  Meus escassos conhecimentos de matéria econômica não me permitem, por exemplo, aventurar-me a corrigir a injustiça da dualidade econômica em que vivemos fazem quinze anos. Tampouco tenho antecedentes científicos para saber como se resolverá a maldita circunstância do marabú (erva-daninha) crescendo por todas as partes. Pernas curtas na política me impedem de prever como se farão efetivas as palavras de João Paulo II de “que Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra à Cuba”.

Sem embargo, meu olfato cidadão fez-me descobrir intuitivamente a SOLUÇÃO. Sómente a livre opinião fará com que aqueles que podem mostrar remédios se atrevam a fazê-lo. O economista que guarda em sua gaveta o plano para sanear a economia cubana necessita de garantias de que não será castigado por dizer suas idéias. Todos os projetos políticos, sociais e de política exterior, que estão ocultos ante a possível represália que podem sofrer seus criadores, reclamam um espaço de respeito.

Deixem que todos falem, não importa se lamentando ou com o respaldo de uma proposta estudada para enfrentar os problemas. Anunciem públicamente que cada cubano pode dizer o que pensa e propor uma solução desde a cor política e a orientação ideológica em que creia. Verão então como afloram os bálsamos, como a queixa cede lugar à proposta e quanto mal isso faz ao crônicos detentores da crítica.

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Geração Y e os outros blogs do Portal Desdecuba.com estiveram inacessíveis durante mais de vinte e quatro horas. As causas do apagão ainda não foram determinadas, porém quero agradecer a todos os que se preocuparam  por nossa desconexão.
Lamento dar-lhes tantas dores de cabeça, porém me alegra comprovar que podemos voltar a renascer dos ataques, dos internautas idiotas e até dos problemas de software. Um abraço e vamos recuperar este dia perdido.

Yoani

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Baixou o preço do combustivel nos postos e na quinta-feira passada o Granma anunciou que para obter uma linha de celular só se necessita agora da metade do dinheiro. Não é notícia frequente que o custo de algo diminua, assim é que estamos ainda duvidando se é sómente um presente de Natal ou o início de um extensivo reajuste de preços. Tive o sonho premonitório - e ingênuo -que talvez esta onda de diminuições se extenda tambem à produtos básicos como o leite, que no mercado em pesos conversíveis tem o abusivo preço de 2.40 cuc por litro.

Como meu filho já tem treze anos, desde há seis que não tem o direito à quota racionada e os mercadores ilegais - com sua oferta de leite em pó - não bateram mais em minha porta depois dos furacões passados. Comprar o /tetra pack/ das lojas em divisas é um sacrifício que só podem fazer uns poucos e tem um sabor de trapaça oficializada. Daí que eu gostaria de recomendar ao Ministério de Preços e Finanças que amplie estas diminuições à todos os produtos básicos que exibem preços proibitivos. Quanto desejaria que nos dessem uma verdadeira surpresa natalina e antes de 31 de dezembro com o salário de um operário possa pagar-se uma vasilha do apreciado lácteo para cada manhã.

Nota do tradutor:
Cuba tem um sistema monetário duplo; salários são pagos em pesos cubanos enquanto turistas usam pesos conversíveis (CUCs). Porém o sistema se sobrepõe porque muitos produtos são disponíveis - mesmo para cubanos -sómente em CUCs. Um CUC vale aproximadamente 20 a 25 pesos, ou US$1.10, $1.30 de dólar canadense, ou 0.80 euros (mais taxas de câmbio). O salário médio mensal é cerca de 400-500 pesos cubanos, ou US$ 15-20. Dessa forma, um litro de leite a 2.40 CUCs corresponde a 2-3 dias de salário.

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