Mi libro De Cuba, Com Carinho  Premio Ortega y Gasset 2008 Periodismo Digital

 Premio del Jurado en Bitácoras.com 2008
Documentário brasileiro sobre Cuba
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Geração Y é um Blog inspirado em pessoas como eu, com nomes que começam ou contem um ípsilon. Nascidos na Cuba dos anos 70 e 80, marcados pelas escolas rurais, bonequinhos russos, saidas ilegais e frustração. Assim é que convido especialmente Yanisleidi, Yusimí, Yuniesky e outros que carregam seus ípsilons para que me leiam e me escrevam.

À noite vigia as fileiras de manga plantadas e a criação de carneiros, com uma escopeta curta de fabricação caseira. É a obra de um improvisado armeiro que soldou um pedaço de cano de diâmetro curto numa culatra rústica da qual sobressai o percusor irregular. Basta o estampido - no meio da madrugada - do tiro do artefato engenhoso para que os que pretendem roubar-lhe a colheita saiam correndo. Quando a porca está parida, chama um irmão que vive no povoado e acompanhados daquela invenção - criada pela necessidade - fazem guarda até que o sol nasça.
Muitos camponeses usam armas ilegais que foram compradas ou produzidas de forma alternativa. Sem elas o fruto de meses de trabalho poderia terminar nas mãos dos “depredadores” de semeaduras, sombras evasivas que se movem na obscuridade. As penúrias aumentaram os roubos nos campos cubanos e obrigado os locais a salvaguardarem, eles mesmos, os seus recursos. Daí que proliferem os cães agressivos e as escopetas manufaturadas, especialmente nos sítios onde existem vacas. A libra de carne de rês é vendida por dois pesos conversíveis no mercado negro que se nutre do furto e abate ilegal, apesar das condenações à longas penas de cárcere em que estes delitos resultam.
Para os guardiões do próprio, foi uma surpresa o anúncio oficial de que “em caráter excepcional e só por uma vez (…) as pessoas naturais e residentes na Ilha que tenham armas de fogo em seu poder, sem a correspondente licença, poderão obter o registro”. Existe, com certeza, a convicção tácita de que quem torne pública semelhante posse, obterá o confisco como resposta. Ante esse temor, poucos confessarão que guardam o frio metal em algum lugar da sua casa e continuarão preferindo o risco de não terem os papéis à insegurança de ficarem sem proteção. Para nosso alarme, esses instrumentos rústicos também servem aos que, sem ter sítio nem animais que preservarem, espiam do outro lado da cerca, dispostos inclusive a disparar para levar o alheio.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Nos habituamos a cifras manipuladas para cima, ao secretismo quando algo ia mal e a um produto interno bruto que nunca refletia o conteúdo de nossos bolsos. Durante décadas os informativos econômicos tiveram a capacidade de esconder, atrás de páginas cheias de números e análises, a gravidade dos problemas. Entre os diplomados na ciência inexata das finanças, houveram alguns que se atreveram a desmascarar a falsidade de certos números - como Oscar Espinosa Chepe - e foram penalizados com um “plano pijama” de desemprego e estigmatização.
Nesta semana a leitura da análise -séria e bem argumentada - publicada pelo presbítero Boris Moreno na revista Palavra Buena aumentou meu nervosismo sobre o colapso que se avizinha de nós. Com o sugestivo título de “Onde vai a barca cubana? Um olhar no ambiente econômico”, o autor nos alerta sobre a queda - vertiginosa - do estado material e financeiro da Ilha. Palavras que deveriam aterrorizar-nos, não fosse porque os ouvidos se nos tornaram um tanto impermeáveis às más notícias, de tanto mergulharmos nas águas da improdutividade e da escassez.
Concordo com o Mestre em Ciências Econômicas em que a primiera e mais importante medida a ser tomada é o “compromisso formal do governo em reconhecer a capacidade de opinar de todos os cidadãos sem que isto implique em represálias de nenhum tipo. Deveríamos eliminar de nosso ambiente os qualificativos que restringem o intercâmbio de ideias e opiniões”. Depois de ler isto pensei na minha vizinha, contadora aposentada, dizendo em voz alta seus critérios sobre a necesidade de permitir a empresa privada sem que isto lhe granjeie um comício de repúdio em frente a sua porta. Dá trabalho planejar algo desse tipo, já o sei, porém acaricio a ideia de que algum dia - sem temor de que sejam acusados de “mercenários a soldo de uma potência estrangeira” - milhares passarão a fazer seus balizamentos e a pedir soluções. Que enorme capital Cuba recuperará!
Ainda que as arcas não se encham com propostas e arrazoados, nossa experiência mostra que o voluntarismo e as exclusões só contribuiram para esvaziá-las.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Vejo policiais por todas as partes. Não sei se os tenho impressos na retina ou se nos últimos meses têm aumentado - alarmantemente - seu número. Vão em caminhões Mercedez Benz, param a tres nas esquinas e até mostram seus cães pastores em vários pontos da cidade. Enquanto centenas de modernas e arredondadas câmeras nos olham de cima, estes uniformizados nos controlam ao nível da rua e de suas calçadas quebradas. Saem do nada e desaparecem quando mais nos fazem falta. Sagazes em detectar um saco de cimento transportado sem documentos, raramente surgem a noite num bairro marginal onde o número de delitos cresce sem parar.
Também estão vestidos de civil, esses “anjos da guarda” que têm presença fixa em qualquer fila, centro cultural ou aglomeração humana. Já não são tão fáceis de detectar, porque mudaram os pulôveres de listras, as camisas quadriculadas e o corte militar dos seus penteados, por disfarces que vão de trancinhas com contas e colares até cuecas aparecendo acima das calças. Agora portam telefones celulares, óculos de sol e sandálias de couro, porém continua-se notando que estão fora de lugar, com a expressão de quem não se encaixa na situação sobre a qual informam. Vão ao Festival de Cinema, porém nunca viram um filme de Fellini; estão nas galerias, não obstante serem incapazes de concluir se o que vêem é um quadro figurativo ou abstrato. Finalmente os ensinaram a se camuflar, porém não puderam apagar-lhes o rictus de desprezo que mostram ante essas “debilidades pequeno burguesas” que são a arte e suas manifestações.
Com certeza, o que mais temo não é o grupo dos que levam a placa de metal numerada sobre o peito nem aos encobertos que redigem informes, senão ao policial coercitivo que todos levamos dentro. Esse que soa o apito do medo para nos advertir que não nos atrevamos e que agita as algemas da indiferença cada vez que acumulamos as críticas ou as opiniões. Passou pela Academia da autocensura e é um soldado destro em mostrar-nos os caminhos que não nos trazem dificuldades. “Não te metas em problemas” e 2do “O que fizeres não vai mudar nada”. Se nos levantamos um dia com vontade silenciar o som de suas botas dentro da nossa cabeça, então nos lembra das grades, dos tribunais, do frio de uma prisão de província. Não precisa levantar o porrete contra nossas costelas, pois sabe tocar as molas do medo e executar os golpes de karatê que deixam nosso corpo dolorido por antecipação, imobilizado, ante a frase de “Fica tranquilo, é melhor esperar”.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Tem oito anos e uma enorme confusão. Hoje pela manhã sua mãe colocou na sua mão uma moeda de 25 centavos depois de dizer-lhe “aqui tens cinco pesos”. Olhou a superfície brilhante com o escudo da república entalhado numa face e no verso a alta torre da cidade de Trinidad. Contudo nasceu num país econômicamente esquizofrênico, ainda não está acostumada a alternar pesos cubanos pelos seus parentes conversíveis. Na escola a professora nunca lhe falou sobre o assunto; para explicá-lo seria necessária toda uma matéria por um semestre. Tampouco lhe esclareceram muito em casa, como se aos adultos parecesse normal que nos bolsos se misturassem dois exemplares monetários.
Em Cuba existem quatro formas de mercado e dois tipos diferentes de dinheiro para se usar. Cada manhã as donas de casa esboçam em suas cabeças - sem muita confusão - o plano com o qual eles serão usados e em que lugar. É uma operação aritmética que leva uns segundos, fortalecida por tres quinquenios de assumida dolarização e seu posterior “fantasma’, o peso conversivel. A conversão é feita constantemente e existem vendedores que aceitam tanto esses bilhetes simbólicos que nos entregam como salário como os outros com um valor 24 vezes maior. Por um abacaxi podemos pagar tanto 10 pesos em moeda nacional - o soldo de uma jornada de trabalho - como cinquenta centavos do popularmente chamado “chavito”. Alguns turistas não estão a par de semelhante complexidade e adquirem a rainha das frutas com uma dezena de pesos conversiveis. Nesse dia o comerciante fecha rápido a loja e volta para casa feliz com o equívoco.
A geração do meu filho não compreende como seria viver com uma só moeda. Creio que têm uma evolução especial no cérebro onde se termina por aceitar o absurdo, nessas conexões neuronais em que tramita o inadmissivel. Realizam as conversões cambiais com a facilidade de quem aprendeu duas línguas desde pequenos e as intercalam sem grande esforço. Só que a aprendizagem de vários idiomas sempre é algo enriquecedor, porém assumir como natural a dualidade financeira é aceitar que existem duas vidas possiveis. Uma delas é achatada e cinzenta, como os centavos nacionais e a outra - que está, em toda sua extensão, fora do alcance para uma boa parte da população - que parece cheia de cores e filigranas, no estilo do bilhete de vinte pesos conversiveis.
Nota do tradutor:
Resumidamente, Cuba tem duas moedas. Moeda Nacional (peso cubano) é o dinheiro com que os salários são pagos e alguns produtos são vendidos. O peso conversivel (CUC) é a moeda que os turistas devem possuir pela troca de dólares, euros, ou outra moeda. Muitos produtos são vendidos, mesmo para os cubanos, somente em CUCs. Um CUC vale 24 pesos cubanos. Após a Revolução, possuir dólares em Cuba era contra a lei até 1993, quando isto tornou-se permitido. O CUC tomou o lugar do dólar americano em 2004. O nome em gíria para o CUC, “chavito”, é uma brincadeira com o nome de Hugo Chavez que é tão detestado como essa moeda pelos cubanos.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Rumores que se propagam, murmúrios convertidos em notas oficiais e jornais que contam - várias semanas depois - o que já se sabe em todo o país. Passamos do racionamento de informações à um verdadeiro “destape” que corre paralelo a censura dos meios oficiais. Nossa glasnost não foi impulsionada dos escritórios e ministérios, senão que surgiu nos telefones móveis, com as câmeras digitais e as memórias portáteis. O mesmo mercado negro que nos abastece de leite em pó ou detergente, agora oferece conexões ilegais na Internet e programas de televisão que chegam através das antenas parabólicas proibidas.
Desse modo temos sabido dos acontecimentos na Venezuela durante a semana passada. Meu próprio celular tem ficado quase no colapso de tantas mensagens contando-me sobre os protestos estudantis e o fechamento de vários canais. Tenho reenviado à toda minha agenda de contatos cópias destas curtas manchetes, numa rede que imita a transmissão viral: eu contagio vários e eles por sua vez inoculam o bacilo da informação numa centena. Não há maneira de parar esta forma de difundir notícias, pois não usa uma estrutura fixa senão que muda e se adapta ante cada circunstância. É anti-hegemônica, contudo a palavrinha adquire conotações diferentes no caso cubano, onde o Granma, a Mesa Redonda e o DOR* têm a hegemonia.
Soubemos das mortes no hospital psiquiátrico dias antes do anúncio oficial, da sorte dos defenestrados de março de 2009 também através da “rádio bemba” e um dia saberemos que chegou o “final”, antes que autorizem contá-lo à imprensa. O caudal de informações se quintuplicou, ainda que isso não obedeça a uma decisão governamental de prover-nos de maiores referências, senão ao desenvolvimento tecnológico, que nos permitiu pular os filmes triunfalistas e os noticiários vazios de conteúdo. Cada vez dependemos menos da papinha mastigada e ideologizada dos telenoticiários. Conheço centenas de pessoas ao meu redor que não sintonizam Cubavisión e o resto dos canais nacionais desde meses. Só olham a tela proscrita.
A tela de um Nokia ou um Motorola, a superfície brilhante de um Cd ou o minúsculo corpinho de uma memória flash, fazem em pedaços nossa desinformação. No outro lado desse véu de omissões e falsidades - criado durante décadas - há uma extensão desconhecida e nova, que nos assusta e atrai.
*Departamento de Orientação Revolucionária do Comitê Central que determina a política
informativa de toda a mídia do país.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

A sexta-feira foi complicada desde o início, não nego. Pela manhã o Claudio faltou, professor de fotografia na Academia Blogger, porque um agente - que lhe mostrou apenas uma carteira opaca com as siglas DSE - o levou detido. Fizemos uma pequena festa em nossa casa depois das aulas para celebrar o primeiro aniversário de Voces Cubanas, que já mostra 26 sítios pessoais numa vida tão curta. Recordo que em meio aos abraços e os sorrisos alguém disse que me cuidasse. “Num sistema assim não há maneira de se proteger dos ataques do Estado”, disse na intenção de espantar meu próprio medo.
Por volta das seis da tarde íamos à uma reunião familiar. Minha irmã, há 36 anos, - no dia do ferroviário - presenteou meu pai com seu primeiro choro de bebê no meio da madrugada. Até Teo, com sua adolescência relutante em participar de atividades de “velhos”, aceitou nos acompanhar. Lá nos esperava o típico aniversário com fotos, velas para apagar e “Felicidades Yunia em teu dia, que o passes com alegria sadia…”. Só que vários olhos que espreitavam tinham outro plano para nós. No meio da avenida Boyeros, a poucos metros do MINFAR e do escritório de Raúl Castro, tres automóveis detiveram o Lada miserável que havíamos tomado numa esquina.
“Nem penses em passar pela rua 23 Yoani, porque a União de Jovens Comunistas está fazendo uma atividade alí”, gritaram uns homens que desceram de um Geely de fabricação chinesa que me fez lembrar uma forte dor na zona lombar. Já vivi algo parecido em novembro passado e hoje não iria permitir que me enfiassem em outro automóvel pela cabeça - desta vez - junto do meu filho. Um homem enorme desceu do veículo e começou a repetir suas ameaças. “Como te chamas?” Foi a pergunta que não teve a hombridade de responder ao Reinaldo. Do corpo espigado de Teo brotou uma frase irônica: “Não disse seu nome porque é um covarde”. Pior ainda, Teo, pior ainda, não disse seu nome porque não se reconhece como indivíduo senão que é um simples porta-voz de outros mais acima. Uma câmera profissional filmava cada gesto nosso, esperando uma pose agressiva, uma frase vulgar ou um excesso de ira. A injeção de terror foi breve, o aniversário nos soube amargo.
Como podemos sair ilesos de tudo isso? De que forma um cidadão pode se proteger de um Estado que tem a polícia, os tribunais, as brigadas de resposta rápida, os meios de difusão, a capacidade de linchá-lo socialmente e convertê-lo num derrotado pedindo perdão? De quem têm tanto medo? Que esperavam que ocorresse hoje na rua 23 para deterem vários blogueiros?
Sinto um terror que quase não me deixa teclar, porém quero dizer à esses que me ameaçaram hoje junto da minha família, que quando alguém chega a certo grau de pânico, não importa uma dose maior. Não vou parar de escrever, nem de twittear; não tenho planos de acabar meu blog, não abandonarei a prática de pensar por mim mesma e - sobretudo - não vou deixar de acreditar que eles estão muito mais assustados do que eu.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Faz muito tempo que nossa identidade deixou de estar contida numa Ilha. O ato de nascer e crescer neste comprido território já não é o elemento principal para portar sua nacionalidade. Somos um povo disperso pelos cinco continentes, como se tivéssemos sido atomizados sobre o painel do mapa mundi pela mão errática das necessidades econômicas e da falta de liberdade.
Sei o que se sente. Sei o difícil que é ir à um consulado cubano num país qualquer e te pedirem uma assinatura pela liberdade de cinco agentes do Ministério do Interior - presos nos Estados Unidos - porém não te perguntarem, sequer, se podem te auxiliar em algo. Escutei uma jovem chorar numa embaixada na Europa enquanto um funcionário lhe repetia que não poderia retornar ao seu próprio país por haver excedido os onze meses da permissão de saída. Também testemunhei o outro lado. Da negativa recebida por muitos que aqui solicitam o cartão branco para subirem num avião e saltarem a insularidade. As limitações para viajar tornaram-se rotina para nós e alguns chegam a acreditar que deve ser assim, porque conhecer ouitros lugares é uma prebenda que nos dão, uma prerrogativa que nos outorgam.
Esses poucos que decidem quem entra ou sai deste arquipélago elegeram os participantes do encontro A Nação e a Emigração que ocorre desde hoje no Palácio das Convenções. Lí os pontos a serem debatidos durante estes dois dias e não creio que representem as preocupações e demandas da maioria dos emigrados cubanos. Salta aos olhos que não se incluiu a exigência de dar fim aos confiscos de propriedades para os que se radicam em outro país, nem se menciona a necessidade de devolver o direito de voto aos exilados. Não encontro sequer, na agenda a ser tratada, o anúncio do fim das limitações que muitos deles têm para ingressar ou se radicarem em seu próprio torrão.
O grupo dos que vivemos na Ilha tampouco está representado em toda a sua pluralidade e seus matizes, senão o selo oficial e o acantonamento do dirigido. Ambas amostras - a de dentro e a de fora - estão cerceadas e filtradas para evitar que *A Nação e a Emigração* termine por converter-se numa exposição da lista de atrocidades migratórias que padecemos. Mais do que reclamações e críticas, as autoridades que organizaram o encontro querem escutar na enorme sala - onde costuma se reunir o Parlamento - o som estrepitoso dos aplausos.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

A vida doméstica impõe obrigações ingratas. A torneira da pia da cozinha goteja, a lâmpada da sala não acende, a chave da porta da frente mostra dificuldades e um mal dia, horror! Quebra a geladeira. Aterrorizados verificamos que a geladeira começa a gotejar e que o zumbido típico da máquina parou. Um conhecido nosso viveu uma tragédia dessa envergadura na semana passada.
Cedo pela manhã telefonou para a Unidade de Reparos Domésticos mais próxima, porém não respondiam ou dava tom de ocupado. Decidiu ir até lá e uma garota polia suas unhas meticulosamente. Contou, angustiado, a história do seu eletrodoméstico e descreveu os sintomas. Esteve a ponto de arriscar um diagnóstico inclusive, porém nesse momento ela o interrompeu avisando-lhe que certamente tratava-se do timer e o almoxarifado não tinha essa peça para reposição. Esclareceu-lhe que a oficina tinha uma lista de espera ocupada por um par de meses. Como homem inteligente, com experiência de vida, o cliente necessitado lhe formulou a pergunta correta no tom adequado: “Isso não pode ser resolvido de outra forma? A mulher deixou seu afazer de manicure e chamou um mecânico aos gritos.
Depois de acertarem o preço, todos ficaram satisfeitos. Ao meio dia o refrigerador havia voltado a funcionar e o técnico voltava para sua casa com o equivalente a quase dois meses do seu salário. Essa noite, meu conhecido, que é barman num hotel cinco estrelas, levou para seu trabalho várias garrafas de rum compradas no mercado negro. Com elas serviu seus primeiros mojitos e as apreciadas piñas coladas que os turistas beberam. Eles não suspeitavam que estavam ajudando desse modo a preencher o furo deixado pelo conserto da geladeira, o enorme rombo que o pressuposto de barman havia sofrido.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

A cada noite, no cabaret de um luxuoso hotel, um empresário europeu vai de mesa em mesa fazendo um pedido insólito. Aproxima-se dos comensais e explica-lhes que quando chegar a conta deixem-no pagar, com esses vales coloridos que traz em seu bolso. Em troca eles lhe darão o montante em pesos conversíveis que depois poderá trocar por dólares ou euros para levá-los para bem longe. Este homem é uma vítima do curralzinho financeiro que impede numerosos investidores estrangeiros de tirarem seus ganhos do território nacional. Para que não se desesperem completamente, as autoridades cubanas lhes permitem consumir ao longo da Ilha, pagando com papéis sem valor real.
O drama dos fundos congelados atinge hoje numerosos negociantes que se introduziram no nosso cenário econômico com a aprovação da lei de inversões estrangeiras em 1995. Desfrutavam do privilégio de gerir uma firma, condição totalmente vedada aos que nascemos aqui. Vinham a ser a nova classe empresarial num país onde a Ofensiva Revolucinária de 1968 havia confiscado até as cadeiras dos engraxates. A abundante mais valia que conseguiam obter os convertia num alvo muito atraente para as prostitutas, as casas de aluguel e para os membros da segurança do estado. Muitos deles eram vistos nos restaurantes mais caros escolhendo manjares apetitosos e acompanhados de mulheres muito jovens. Outros, os menores, davam presentes adicionais para seus empregados como compensação pelos baixos salários em pesos cubanos que a empresa empregadora do estado lhes pagava.
Estes representantes de um “coletivo avançado” estavam dispostos a perder um pouco do capital sempre e quando pudessem se situar - desde já - no cenário que algum dia seria como um pastel cortado em fatias. Com certeza, aqueles que fecharam contratos e compartilharam com eles o champagne, depois de um acordo, consideravam-nos somente um mal necessário e provisório, um desvio que seria erradicado ainda nem terminado o Período Especial. Depois de tantas garantias prometidas, faz uns meses lhes têm mostrado as arcas vazias, enquanto lhes repetem “não podemos pagar-lhes”. Imediatamente estes empresários começaram a sentir a impotência e o grito - travado no meio da garganta - que a cada dia nós cubanos, carregamos. Contudo, com certeza, não estão tão desprotegidos como nós ante a destruição do Estado: um passaporte de outro lugar lhes permite ir num avião e esquecerem tudo.
Nota do tradutor: O curralzinho ( El corralito) foi o nome dado pelo governo argentino ao congelamento das contas bancárias, mais estritamente em dólares americanos, entre dezembro de 2001 e dezembro de 2002, quando a nação entrou em crise financeira.
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

Os loucos são presa facil dos patifes que gritam das esquinas frases dolorosas para aumentar seu delírio. Com dois barquinhos de papel tinhamos um na minha quadra que passava horas numa estranha regata que não o levava à parte alguma. Sua mãe o mantinha calmo a base de benadrilina e diazepam; tudo para não enviá-lo ao armazém da demência que é Mazzorra, o hospital psiquiátrico havaneiro.
Na mente daquela senhora estavam as imagens do que havia sido a clínica psiquiátrica da rua Boyeros, com seu terror acumulado e sua depauperação material. O pacientes quase desnudos, as paredes cheias de excrecências humanas e a falta de supervisão, eram o cenário para as piores atrocidades. As fotos haviam sido publicadas nas revistas daquele longínquo 1959. Depois chegaram reportagens pela televisão, lençóis limpos, terapia ocupacional e até murais políticos que mudaram a face do que havia sido o horror. Só que, como já lhes disse, os loucos são presa facil dos patifes.
A partir dos anos noventa, com a chegada do período especial, o desvio de recursos atormentou Mazzorra. Os vizinhos das ruas adjacentes estavam bem sortidos por um mercado negro de cobertores, leite, comida, roupa, toalhas e medicamentos que saíam do hospital. Os alí ingressados acreditavam que fazia parte do seu sofrimento que, em cada dia, - como no filme “A luz que agoniza” - faltassem lâmpadas elétricas nas salas. Foram-lhes subtraindo todo o indispensavel e ninguém notou as janelas quebradas, as privadas entupidas e as camas de pés quebrados. Dessa vez não havia um jornalista autorizado para retratar a miséria.
A imprensa oficial não pode esconder, contudo, a morte de 26 pacientes - alguns afirmam que a cifra é próxima dos 40 - por hipotermia e padecimentos associados ao abandono. Foram-se desta vida nuns dias frios de janeiro, enquanto apertavam corpo contra corpo sem poder com isso evitar o final. Os patifes, por seu lado, edificavam casas com o dividendo do roubo e acreditaram que ninguém nunca detectaria seus desfalques. Hoje, no hospital se investiga os responsáveis atrás de uma barreira policial para que os curiosos não se aproximem. Não fizeram imagens, porém me atormenta a ideia de quanto estes pacientes chegaram a se parecer, em seu desamparo, àqueles rostos das fotografias do passado.
Imagenes tiradas de: http://cubalagrannacion.wordpress.com/2010/01/17/el-hospital-de-dementes-de-mazorra/
Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto
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